sábado, 26 de setembro de 2009

O que resta de Auschwitz (Giorgio Agamben)


Em latim, dois termos podem representar a testemunha: o primeiro, testis, significa aquele que se põe como terceiro (terstis) em um processo ou em um litígio entre dois contendores; o segundo, superstes, indica aquele que viveu algo, atravessou um evento até o fim e pode dar testemunho disso. As ‘verdadeiras testemunhas’, as ‘testemunhas integrais’ são aquelas que não testemunharam, nem poderiam fazê-lo, nos campos de concentração são os muçulmanos (muselmann), os submersos. Enquanto os sobreviventes, como pseudotestumunhas, falam em seu lugar: testemunham sobre um testemunho que falta. Quem assume o ônus de testemunhar por eles, sabe que só testemunham pela impossibilidade de testemunhar. Realmente, isso altera o valor do testemunho definitivamente. Durante uma pesquisa na Universidade de Yale, S. Felman e D. Laub elaboraram a noção de shoá como “acontecimento sem testemunhas”, no duplo sentido, pois é impossível testemunhar tanto a partir de dentro (como se pode testemunhar a partir da morte? Não há voz para a extinção da voz) quanto a partir de fora (o outsider é excluído do acontecimento por definição).

O intestemunhável tem nome! No jargão dos campos, der Muselmann, o muçulmano: grupo de homens-múmia, mortos-vivos, ser imbecilizado, que sofre de sintomas da doença da desnutrição, desinteira. Observando de longe um grupo de enfermos, tinha-se a impressão de que fossem árabes em oração e dessa imagem derivou a definição usada normalmente em Auschwitz para indicar os judeus que estavam morrendo de desnutrição: Muselmann, muçulmanos. Muselmann derivou, portanto, da postura típica desses deportados ao ficarem encolhidos ao chão, com as pernas dobradas de maneira oriental, com o rosto rígido como uma máscara – os judeus sabiam que em Auschwitz não morreriam como judeus. O muçulmano não viu nem conheceu nada, apenas a impossibilidade de conhecer e ver. Por isso para o muçulmano testemunhar a impossibilidade de ver, não é tarefa fácil. F. Frontisi-Decroux mostrou-nos o que era Górgona para os gregos – horrível cabeça feminina coroada de serpentes, cuja visão produzia a morte e que Perseu, sem olhar para ela, tem de cortar, com a ajuda de Atenas. Assim, no fundo do humano não há senão uma impossibilidade de ver: isso é Górgona, quem a viu? O muçulmano. Quem dá testemunho por ele, vão constituir um único olhar, uma só impossibilidade de ver.

As ‘testemunhas integrais’, aquelas em cujo lugar vale a pena testemunhar, são os que já tinham perdido a capacidade de observar, recordar, mediar e se expressar. De um lado, enquanto as vítimas testemunhavam a respeito do fato de se terem tornado inumanos, por terem suportado tudo o que podiam suportar, de outro lado, os carrascos, que torturavam e matavam, continuavam sendo ‘homens honestos’, não suportando aquilo que, acima de tudo, podiam suportar. Assinala-se, pois, de Hegel em diante, um termo: o ‘culpado-inocente’, ideia sob a qual a cultura moderna interpretou a tragédia grega e, com ela, suas discórdias. Em todos os conflitos trágicos deve-se descartar a falsa representação de culpa ou inocência, compreendeu Hegel: os heróis trágicos são culpados e, ao mesmo tempo, inocentes, foi assim em Édipo rei, que matou o pai, casou-se com a mãe, sem o querer, ou seja, um herói trágico que agiu sem culpa. Desse modo, analisa-se o comportamento do Sonderkommando, que torna qualquer conflito trágico impossível em Auschwitz.

O testemunho envolve, portanto, pelo menos dois sujeitos: o primeiro é o sobrevivente, que pode falar, mas não tem nada de interessante a dizer; e o segundo é quem ‘viu Górgona’, quem ‘tocou no fundo’ e tem, por isso, muito a dizer, mas não pode dizer. Deste modo, a metafísica e a reflexão ocidental sobre a linguagem procuraram constantemente articular o ser vivo e o ser que fala, até encontrar um elo de ligação que garantisse a comunicação entre o que parecia incomunicante, até atribuir uma consistência à substância ‘sonhada do’ sujeito. Não se trata mais de fazer morrer e fazer viver, caráter específico da biopolítica do século XIX, mas fazer sobreviver: produção de uma sobrevivência modulável e virtualmente infinita. Trata-se, no homem, cada vez mais, de separar a vida orgânica da vida animal, o não-humano do humano, o muçulmano da testemunha. Em outros termos, trata-se de manter em funcionamento a vida vegetal mediante técnicas de reanimação da vida consciente, até alcançar um ponto-limite que é essencialmente móvel e se descola por meio do progresso das tecnologias científicas e políticas. O muçulmano, no campo (assim como o corpo do ultracomatoso e do neomort das salas de reanimação), não manifesta apenas a eficácia do biopoder, mas apresenta, grosso modo, sua cifra secreta, exibe o seu arcano, caixa secreta. No muçulmano, então, o biopoder tende a produzir-se como último arcano – segredo intestemunhável, uma sobrevivência separada da possibilidade de qualquer testemunho, ou uma espécie de substância biopolítica absoluta que, em seu isolamento, permite que se confira qualquer identidade (demográfica, étnica, nacional, política).

Povo e população formam uma cesura que divide o âmbito biopolítico, que consiste em fazer surgir do próprio seio do povo uma população. O não-ariano transmuta-se em judeu, o judeu em deportado, o deportado em internado, até que, no campo, as cesuras biopolíticas alcancem o seu limite último: o muçulmano. A biopolítica do racismo vai além da raça e penetra num umbral impossível de estabelecer cesuras: povo e população desvinculam-se até surgir uma substância biopolítica absoluta, que não se podem admitir cesuras. Os campos na biopolítica nazista não são apenas lugar de morte e extermínio, mas o lugar da produção do muçulmano (última substância biopolítica isolável no continnum biológico), que para além disto, só há câmara de gás.

Um comentário:

Juliana Morosino disse...

Parabéns pelo texto, esclarecedor ao acrescentar elementos que permitem uma reflexão não muito rente ao livro de Agamben.